À medida que o Brasil se aproxima de mais um ciclo eleitoral, compreender quem controla a circulação da informação na internet tornou-se uma questão central para a democracia. Foi com esse ponto de partida que a ativista, escritora e diretora Alessandra Orofino abriu, nesta semana, o curso A Política das Redes, que passa a integrar a plataforma de formação política do BONDE. Durante a aula inaugural, ela argumentou que as redes sociais deixaram de ser espaços de livre circulação de ideias para se tornar ambientes organizados por algoritmos que determinam o que as pessoas veem, compartilham e, em muitos casos, passam a acreditar.
Uma das principais reflexões da aula foi a transformação da própria lógica de consumo de informação na internet. Segundo Orofino, enquanto a internet surgiu com a promessa de permitir que cada usuário escolhesse quais conteúdos consumir, hoje essa decisão foi amplamente transferida para sistemas algorítmicos que priorizam engajamento em vez das escolhas conscientes das pessoas. “Em alguma medida, a gente está sendo conduzido a não ser capaz de tomar decisões autônomas sobre aquilo que a gente consome”, afirma Alessandra Orofino.
Outro tema abordado foi o crescimento da chamada slopaganda, termo utilizado para descrever conteúdos produzidos com inteligência artificial voltados à propaganda política. Segundo Orofino, esse tipo de conteúdo não busca necessariamente convencer pelo argumento, mas funcionar como um marcador de identidade nas redes sociais. Compartilhar uma publicação passa a ter menos relação com informar outras pessoas e mais com sinalizar pertencimento a determinado grupo político.
“É diferente da pessoa que lê o jornal e depois comenta na família sobre o que leu. Compartilhar nas redes sociais é como quem coloca um boné ou um colar. É um acessório na composição da minha identidade pública”, frisa.
A aula também discutiu como a inteligência artificial amplia a concentração de poder nas grandes plataformas. Entre os exemplos apresentados, Orofino citou a expectativa do setor jornalístico de perda significativa de audiência com a popularização dos resumos produzidos por IA nos mecanismos de busca, reduzindo o acesso das pessoas às reportagens completas e concentrando ainda mais a mediação da informação nas plataformas tecnológicas.
BONDE amplia formação política e participação cidadã
O curso A Política das Redes integra a plataforma de formação do BONDE, que combina cursos exclusivos, encontros ao vivo, workshops e uma comunidade voltada ao fortalecimento do pensamento crítico e da participação democrática. A iniciativa amplia a atuação da organização, que há 15 anos mobiliza pessoas em torno de mudanças em políticas públicas, e aposta na formação continuada para estimular a participação política para além dos períodos eleitorais.
A plataforma receberá novos cursos mensalmente, conduzidos por nomes reconhecidos da análise política, da cultura e do ativismo brasileiro. A programação já confirmada inclui Marcos Nobre, com Raio X da Extrema Direita, em setembro; Rita Von Hunty, com O Colapso do Gênero, em outubro; Ynaê Santos, com Revoluções e Rebeliões Negras nas Américas, em novembro; e Angela Mendes, com Lutar como Chico, em dezembro. Em 2027, estão previstos cursos de Sidarta Ribeiro, Txai Suruí, Schuma Schumaher, Dani Silva, Raul Santiago e Ed René Kivitz.
A plataforma do BONDE é aberta a qualquer pessoa interessada em aprofundar conhecimentos sobre democracia, clima, direitos humanos, cidades e mobilização social. O acesso é feito por assinatura, que inclui cursos exclusivos, encontros ao vivo, workshops, participação na comunidade BONDE e conteúdos sobre campanhas e organização coletiva. A plataforma recebe novos cursos todas as semanas e também oferece modalidades de assinatura que vão financiar bolsas de estudo para ampliar o acesso de outras pessoas. Mais informações estão disponíveis em bonde.org.











