O Brasil vive um paradoxo quando o assunto é esporte: enquanto 93% afirmam que querem se movimentar, apenas 44% conseguem manter uma rotina ativa. O dado faz parte de um estudo inédito lançado pela Decathlon, realizado em parceria com o Consumoteca, que investiga a relação do brasileiro com a atividade física, não apenas como prática, mas como comportamento cultural.
Intitulado “O novo significado do esporte no Brasil: onde corpo, movimento e cultura se encontram”, o estudo analisa o papel da atividade física na vida dos brasileiros e as barreiras que ainda limitam sua prática, a partir de uma abordagem que combina imersão em repertório acadêmico, análise de mais de 10 milhões de menções nas redes sociais e uma pesquisa quantitativa com 2.017 pessoas, representativa de todas as regiões, classes sociais e faixas etárias.
Mais do que entraves pontuais, esses dados refletem um desafio estrutural: o exercício ainda não está plenamente integrado à rotina da maioria dos brasileiros. Esse cenário varia conforme o contexto. Entre jovens da Geração Z, por exemplo, a intenção é alta, mas a consistência é menor, apenas 43% são ativos, frente a 49% dos millennials.
Esse descompasso se torna ainda mais evidente ao olhar para o comportamento recente e as perspectivas futuras: 76% dos brasileiros já foram ativos em algum momento da vida e 70% pretendem começar a se exercitar ainda este ano, indicando que o principal desafio hoje não é despertar interesse, mas sustentar a prática no dia a dia. Entre aqueles que já mantêm uma rotina, o movimento é de avanço: 57% aumentaram a frequência de prática no último ano e 52% acreditam que poderiam se exercitar mais.
“O brasileiro não tem um problema com o esporte. Tem um problema com as condições para praticar. Existe desejo, mas ainda faltam caminhos possíveis para transformar isso em rotina”, afirma Michel Alcoforado, antropólogo e sócio-fundador da Consumoteca.
Entre intenção e prática: o que impede o brasileiro de se movimentar
Apesar da valorização crescente, a prática esportiva ainda esbarra em obstáculos concretos. A falta de motivação aparece como principal barreira (45%), seguida pela falta de tempo (39%) e pelo custo (31%). Outros fatores também influenciam, como falta de companhia (18%), desconforto com ambientes de prática (15%) e inseguranças relacionadas ao julgamento (10%).
Entre as mulheres, essas barreiras são ainda mais complexas: além de custo e tempo, entram fatores como segurança, responsabilidades com filhos e experiências negativas. 16% relatam já ter sofrido assédio ou discriminação durante a prática esportiva, evidenciando desafios estruturais que vão além da rotina.
O esporte deixou de ser só prática, virou parte de quem somos
O estudo mostra que a relação com o esporte está mudando. Mais do que desempenho ou estética, a atividade física passa a ocupar um papel central na forma como as pessoas se percebem e organizam suas vidas.
- 72% afirmam que a atividade física faz parte da sua identidade
- 50% associam o exercício à redução de estresse e ansiedade
- 49% percebem impacto direto na autoestima
Ao mesmo tempo, cresce a integração entre corpo e mente. Entre praticantes, 49% já enxergam corpo e mente de forma integrada. Já entre os sedentários, predomina uma lógica inversa: 50% relatam uma vida dominada pela dimensão mental, evidenciando uma desconexão com o corpo. No fim, não se trata apenas de praticar ou não praticar, mas do papel que o esporte ocupa na vida, como ruptura ou como eixo estruturante da rotina.
Do desempenho à conexão: o novo significado do esporte
Em um contexto de excesso de estímulos e sobrecarga digital, o esporte também ganha um novo papel social, criando vínculos e fortalecendo relações.
- 84% afirmam que a prática ajuda a recuperar foco e presença
- 66% já fizeram novas amizades por meio do esporte
- 50% se veem como parte de uma “tribo” ligada à prática esportiva
- 82% preferem conhecer pessoas em ambientes esportivos do que em aplicativos de relacionamento
Esse movimento aponta para uma transformação mais ampla: o esporte deixa de ser apenas atividade física e passa a funcionar como espaço de pertencimento, socialização e construção de identidade.
O Brasil quer mais esporte, mas não necessariamente o que já pratica
A pesquisa também revela um descompasso entre prática e desejo. As atividades mais comuns hoje, como caminhada e musculação, são aquelas de menor barreira de entrada, exigindo menos custo, estrutura ou aprendizado técnico. Mas existe um conjunto de esportes altamente desejados que ainda não fazem parte da rotina da maioria. Entre eles estão:
- Natação (8% praticam vs. 27% gostariam)
- Artes marciais (4% praticam vs. 23% gostariam)
- Pilates (9% praticam vs. 21% gostariam)
- Esportes de areia (3% praticam vs. 13% gostariam)
- Camping/trekking (1% praticam vs. 11% gostariam)
O principal entrave não é a falta de vontade, mas sim limitações práticas como custo, infraestrutura e disponibilidade. Na prática, o brasileiro ainda constrói sua rotina esportiva a partir do que é possível, e não necessariamente do que deseja. Esse cenário ajuda a explicar uma mudança de comportamento: o brasileiro já não quer um único esporte, mas uma rotina mais diversa e adaptável ao seu dia a dia. Hoje, 53% afirmam gostar de experimentar novas práticas, enquanto 57% utilizam diferentes atividades físicas para se desconectar.
Desigualdades moldam a relação com o esporte no país
O estudo também evidencia diferenças importantes:
- Classe social: quanto maior a renda, maior a prática e maior o foco em performance e força física
- Geração: a prática não cresce de forma linear com a idade. Millennials são os mais ativos (49%), enquanto a Geração Z, apesar de mais interessada, tem menor consistência (43%). Entre brasileiros acima de 61 anos, o sedentarismo predomina: 63% não atingem o nível recomendado de atividade física pela OMS, indicando que, ao longo do tempo, limitações de saúde passam a substituir barreiras como tempo e motivação
- Infância: as diferenças de gênero começam cedo e influenciam toda a trajetória esportiva. O futebol aparece como um divisor claro — é o único esporte que figura entre os mais praticados pelos homens e praticamente desaparece entre mulheres (39% vs. 5%). Mais do que uma modalidade, ele funciona como um espaço de socialização primária: meninos aprendem desde cedo a se movimentar em grupo, enquanto meninas não têm um equivalente com o mesmo peso cultural. Como esses primeiros contatos funcionam como porta de entrada para o esporte, eles tendem a influenciar tanto as práticas mantidas ao longo da vida quanto aquelas que permanecem no campo do desejo
- Gênero: homens e mulheres apresentam níveis de prática semelhantes (46% dos homens são ativos vs. 43% das mulheres ativas), mas enfrentam barreiras diferentes. Enquanto homens esbarram mais em motivação e gestão do tempo, mulheres lidam com obstáculos mais estruturais, como insegurança, falta de companhia e responsabilidades com filhos;










