Pesquisa da FGV mostra que apenas 39% dos trabalhadores estão engajados. Na análise de Adeildo Nascimento, especialista em cultura organizacional, o problema é estrutural e exige mudança na forma de liderar
O engajamento dos trabalhadores brasileiros atingiu o menor patamar desde o início da série histórica da pesquisa Engaja S/A, realizada em parceria com a FGV. Apenas 39% dos profissionais se dizem engajados, uma queda de cinco pontos percentuais em relação a 2024. O dado, por si só, já preocupa. Mas há um agravante: o levantamento calculou, pela primeira vez, o impacto econômico do desengajamento. A combinação de turnover e presenteísmo gera perdas estimadas em R$ 77 bilhões por ano, o equivalente a cerca de 0,66% do PIB.
Para Adeildo Nascimento, CEO da DHEO Consultoria e especialista em cultura organizacional, o problema vai muito além de clima ou benefícios. “Nunca antes no país tivemos um nível tão baixo de engajamento. São 39%. Já imaginou isso dentro da sua empresa?”, questiona.
Não é sobre clima. É estrutural
Durante anos, muitas organizações apostaram em pacotes de benefícios, ambientes agradáveis e programas de clima organizacional como solução para retenção e motivação. O modelo, segundo Adeildo, perdeu força. “Criamos empresas com bom café, bons refeitórios, benefícios competitivos e salários atrativos. Mas a relação das pessoas com o trabalho mudou drasticamente. Hoje, engajamento não nasce de conforto. Nasce de sentido e significado”, afirma.
Ele destaca que clima é consequência, não causa. “O clima é um subproduto da cultura. Durante muito tempo tratamos como se fosse o contrário. Cultura é o que sustenta — ou compromete, a performance no longo prazo”. A queda contínua dos indicadores reforça essa mudança de paradigma. “Se você imaginar que só quatro de cada dez colaboradores estão, de fato, engajados, isso afeta margem, caixa, atendimento ao cliente e competitividade. O impacto macroeconômico é grave, mas o impacto dentro da empresa pode ser devastador.”
De competência a comportamento
Outro ponto central é a mudança de competências técnicas para comportamentos. “Competência virou commodity. Se não tem, está fora do jogo. O diferencial agora está no comportamento. É nele que a cultura se instala e que o engajamento genuíno nasce”, explica.
Empresas com processos obsoletos, estruturas rígidas e práticas desumanizadas tendem a afastar as pessoas do propósito. Muitos profissionais não encontram sentido no que fazem. Sem significado, não há comprometimento. Para Adeildo, cabe ao CEO ou líder resgatar essa conexão. “Você é o responsável por dar significado ao trabalho do seu time. Se isso não acontecer, o desengajamento se instala”.
Cultura como sistema operacional
O especialista compara a cultura ao sistema operacional de uma empresa. “Se há bug no sistema, não é o clima que vai resolver. Só projetos estratégicos de cultura conseguem identificar e corrigir essas falhas”. Reforça que o futuro do engajamento passa por uma cultura forte, coesa e coerente com a prática das lideranças. Mesmo empresas consideradas excelentes para se trabalhar estão vendo o engajamento cair. Isso é a prova de que ambiente agradável não gera comprometimento sustentável.
Para Adeildo, “cultura não é discurso. É estratégia”. A pergunta que fica para o empresariado é simples e urgente. “É aceitável operar com apenas quatro em cada dez colaboradores verdadeiramente comprometidos?
Vídeo completo no link: https://www.youtube.com/watch?v=d5gzVsEtVzY








