Em uma era hiperconectada, dominada pelo bombardeio de telas, curtidas e algoritmos de aceleração, a comunicação visual frequentemente enfrenta um dilema existencial. Reduzir o design e a ilustração a meras ferramentas de conversão comercial ou geração de leads empobrece um ativo que, essencialmente, molda a experiência humana e o senso crítico. No último episódio do Report 360 (Jovem Pan News – RIC Business), o apresentador Daniel Filla conversou com Rafa Camargo, designer, ilustrador, professor universitário e um dos grandes pensadores da área imagética no Paraná.
No debate, o convidado trouxe provocações profundas sobre os caminhos do design contemporâneo, a valorização da criatividade humana perante a inteligência artificial e a necessidade urgente de resgatar a escuta, o humor e a lentidão como válvulas de escape.
Do Interior às Ondas do Rádio: a Origem de um Comunicador
Filho de comunicadores e criado em uma vila de funcionários de rádio no interior do estado, em Pato Branco, Rafa Camargo traz no DNA a sensibilidade para as mídias. O profissional iniciou sua trajetória aos 12 anos de idade assumindo uma função peculiar: era o responsável por soltar jingles e anúncios no sistema de som de uma rodoviária local.
Por ser uma criança tímida em relação à oratória, o desenho e o design surgiram cedo como canais terapêuticos e silenciosos de expressão própria. Mais tarde, na capital, uniu a precisão técnica das edificações no antigo CEFET ao lado lúdico das artes visuais. O percurso incluiu 15 anos à frente de um estúdio próprio de design, temporadas de trabalho nos Estados Unidos e uma sólida transição para a academia, consolidada por um mestrado focado em design social e um doutorado em educação com período de pesquisa no laboratório Euresis de cosmologia e ontologia, na Itália.
“O design vai muito além da casca do ovo: ele é o ‘da-sein’, o modo de ser e a própria intenção da existência de processos, serviços e interfaces humanas.” – Rafa Camargo.
O Design de Transição e o Confronto com o Excesso de Telas
Citando os questionamentos do teórico Victor Papanek nos anos 70 — que alertava sobre o poder do design em fazer a sociedade comprar coisas desnecessárias com recursos inexistentes —, Camargo destacou que a profissão pós-guerra atuou como um braço produtor do consumo desenfreado. Contudo, as novas diretrizes do mercado apontam para um “design de transição”. Apoiando-se nos estudos do biólogo Stefano Mancuso sobre cooperação biológica, o professor defende que os novos comunicadores visuais devem trocar a cultura da hierarquização agressiva por projetos mais colaborativos:
- Sustentabilidade holística: repensar a cadeia produtiva educando o cliente não apenas até o momento da venda ou do consumo, mas projetando o design de forma sistêmica a partir do descarte e da economia circular.
- A ameaça do scrolling: a substituição do desenho muscular e do rabisco manual na infância pelo hábito passivo de pular conteúdos (skipping) altera as estruturas cerebrais, gerando gerações mais distraídas, dispersas e incapazes de interpretar nuances complexas.
- Riscos ecológicos da IA: dados apontam que a dependência excessiva de plataformas de inteligência artificial generativa acarreta um severo impacto ambiental invisível, devido ao altíssimo consumo de água pura necessário para o resfriamento térmico dos servidores globais.
O Humor Como Resguardo da Democracia
Uma das defesas mais contundentes feitas por Rafa Camargo durante a entrevista foi a importância do humor e do desenho livre como ferramentas de manutenção do senso crítico. O declínio global do hábito de escrever e desenhar à mão prejudica áreas cognitivas responsáveis pela absorção do cinismo saudável, do sarcasmo e da metáfora. Em uma sociedade que lê os fatos de forma puramente literal, perde-se a habilidade de filtrar notícias falsas e de rir de si mesmo, o que é apontado em pesquisas internacionais como uma ameaça democrática.
Como contraponto a essa rigidez, a arte se manifesta na cidade por meio de duas grandes frentes coordenadas pelo especialista:
- Rir Para Não Chorar: exposição artística em cartaz no Centro Cultural da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). O projeto reúne obras de sete cartunistas icônicos do Brasil (desde nomes de Belém do Pará até lendas latino-americanas e chargistas da Folha de S.Paulo, como Marília Marz, Bennet, William Medeiros e Lark).
- Intervenção Urbana: introdução de uma disciplina inovadora no curso de design, que desafia os estudantes a compreenderem o ecossistema urbano além do grafite tradicional, utilizando a intervenção visual disruptiva para desacelerar o cotidiano caótico das grandes cidades.
Ao final, o ilustrador reforçou que o futuro da ilustração deve caminhar no sentido inverso ao ódio e à pressa do ecossistema digital. A meta do criar, segundo o pensador, deve ser o fortalecimento de uma cultura de paz e sensibilidade humana: permitindo que as pessoas andem devagar de bicicleta, tenham presença significativa com os filhos e usem a imagem como uma verdadeira poesia transparente com o mundo.
Assista ao Episódio Completo:
Para acompanhar a reflexão completa sobre o impacto do design social nas cidades e entender por que a criatividade humana se mantém como o ativo mais protegido pelo mercado em Hollywood e no mundo, assista à entrevista na íntegra:
Serviço:
Os projetos acadêmicos e o portfólio conceitual de ilustrações e design social de Rafa Camargo podem ser acompanhados através de suas redes sociais e plataformas acadêmicas.
O Report 360 é uma iniciativa da Explay Web Agency, Básica Comunicações, Grupo OM e Jovem Pan News PR – Grupo Ric Paraná.












